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Entrevista sobre bens comuns para o site Em Rede

(Republicado do site Em Rede.)
Entrevista por: Bia Martins

Miguel Said Vieira, pesquisador e professor da Universidade Federal do ABC

Miguel Said Vieira, pesquisador e professor da Universidade Federal do ABC

 

O debate sobre a construção do comum e os riscos de sua apropriação pelo capital vem ganhando destaque nos dias atuais. Por um lado, as redes de comunicação facilitaram a disseminação da produção colaborativa em iniciativas do porte da Wikipédia e do sistema operacional Linux. Por outro, novas formas de mercantilização e cercamento têm sido criadas, por vezes de forma um tanto sutil. Nesta entrevista, Miguel Said Vieira, professor da Universidade Federal do ABC, aborda as características e a complexidade da construção e da preservação do bem comum.

– Para começar nossa conversa: o que é o comum? Em que ele se diferencia da noção de público?

Numa definição simplificada, o comum são coisas compartilhadas por grupos sociais. “Comuns” e “bens comuns” são expressões que se referem aproximadamente à mesma coisa (mas com abordagens e ênfases diferentes — o diabo às vezes mora nos detalhes).

A diferença entre a noção de comum e a de propriedade privada é bem evidente, já que esta última pressupõe controle exclusivo (e em geral, individual). A diferença entre a noção de comum e a de público, porém, é um pouco mais sutil, e com frequência se faz confusão entre elas. A coisa pública é aquela que pertence por direito a toda uma comunidade (os cidadãos de uma nação), mas é gerida por uma instância representativa (o Estado); a relação entre essa comunidade e a coisa “compartilhada” é, assim, muito mais indireta que no caso do comum, em parte pelo fato de que o Estado frequentemente acaba por favorecer os grupos sociais mais poderosos.

– Por que, na sua avaliação, o debate sobre o comum vem ganhando relevância hoje em dia? As ameaças são maiores atualmente ou, ao contrário, há mais condições para o seu florescimento por conta da comunicação em rede?

Paradoxalmente, acredito que ambas as razões têm aumentado a relevância desse debate. Por um lado, a tendência de avanço da privatização e dos mercados sobre todas as esferas da vida não dá sinais de perder força significativamente, mesmo depois da crise de 2008; apontar e problematizar essa tendência é fundamental para defender os bens comuns existentes. O avanço da digitalização e da comunicação em redes, por outro lado, tem um caráter ambíguo: pode servir a fortalecer essa tendência de mercantilização, mas gera fissuras (por exemplo, no cenário da mídia de massas) e abre possibilidades para quem deseja nadar contra a corrente, experimentando novos formatos de mobilização e associação; onde há poder, há resistência, como dizia Foucault. As experiências positivas de novos bens comuns quase invariavelmente beneficiam-se dessas possibilidades; é preciso estar atento aos riscos que elas implicam (afinal, as tecnologias nunca são neutras), mas isso não deve levar ao imobilismo.

– Em sua pesquisa de doutorado você estudou as formas de mercantilização do comum, o que à primeira vista parece contraditório. Como isso acontece? Pode dar algum exemplo?

Assim como no mercado financeiro, em que os ganhos se dão por mecanismos cada vez mais complexos e distanciados da “economia real”, a mercantilização também não é um processo simples, unidimensional: não é apenas colocar uma etiqueta de preço em um objeto que antes não era vendido. É importante estar atento a essa complexidade nos novos bens comuns, ligados aos bens culturais e de informação. Tomemos o exemplo do software livre: o software em si deixa de ser uma mercadoria (ele pode ser compartilhado livremente), mas, em diversos casos, os serviços relacionados a esse software (instalação, suporte, customização) são vendidos como mercadorias; às vezes, produz-se também uma versão “premium” (e proprietária) desse software, que é vendida como mercadoria; ou investe-se no desenvolvimento de um desses softwares para impulsionar a venda de um hardware específico etc.

Em alguns casos, o saldo é positivo, com o comum avançando mais que a mercantilização: os serviços ligados a software, por exemplo, quase sempre foram vendidos como mercadoria — não há um retrocesso, nesse sentido. Às vezes, porém, o saldo pode ser ambíguo, ou mesmo negativo: como quando uma empresa direciona um projeto de software livre de forma a favorecer sua estratégia comercial, em detrimento dos interesses da comunidade mais ampla que contribui para ou poderia se beneficiar do projeto. (No meu doutorado, analisei brevemente um episódio do desenvolvimento do kernel Linux — a controvérsia dos “patches ck” — que exemplifica essa situação.)

Na área de acesso aberto a periódicos científicos também ocorre algo similar, particularmente no modelo baseado em APCs, as taxas para publicação (em que quem paga não é o público leitor, mas os autores e instituições de pesquisa). Em alguns casos, esse modelo de publicações é estruturado de forma a atender os interesses das mesmas grandes editoras que já faziam da publicação científica um oligopólio com taxas de lucro obscenas.

O exemplo mais extremo de mercantilização que analisei foi a publicidade online comportamental (que envolve o uso dos dados de um usuário para selecionar — e precificar — os anúncios exibidos a ele), que é usada para custear o sustento de alguns comuns. Nesse caso, a atenção da própria comunidade ligada ao bem comum vira a mercadoria, vendida a anunciantes; e o mecanismo só é viável se a comunidade consumir mais mercadorias (do contrário, sua audiência não será uma mercadoria rentável para anunciantes). Essa mercantilização é tão profunda que deixa a dúvida se ainda é possível falar de comum nesses casos; plataformas como Facebook e Google — usuárias intensivas desse tipo de publicidade — dão-nos a ilusão de uma praça, quando na verdade estão muito mais para um shopping: toda a socialização ali é silenciosamente apropriada por essas empresas (e eventualmente controlada para favorecer seus interesses).

– Na sua tese você dialoga de forma crítica com a economista Elinor Ostrom, autora do livro Governing the Commons, que é uma referência nos estudos sobre o comum. Qual seria, de forma resumida, sua ressalva a essa obra?

A partir do final da década de 1960, consolidou-se uma opinião geral de que os comuns não eram viáveis; o famoso artigo “The Tragedy of the Commons”, do biólogo Garrett Hardin, teve papel central nisso: ele assume que os indivíduos comportam-se como o homo economicus (ou seja, que agimos sempre buscando nosso interesse imediato, com base num cálculo racional extremamente individualista), e a partir daí demonstra que todo bem comum seria sempre destruído pela superexploração.

O trabalho da Ostrom demonstrou magistralmente que essa visão de Hardin é parcial (ignora, por exemplo, a possibilidade de que um grupo construa normas sociais eficazes), e não bate com a realidade: é só observar os muitos comuns existentes para ver que eles podem sim ser viáveis; e o trabalho dela continua contribuindo para elucidar as condições que afetam a viabilidade efetiva de um comum. O problema da abordagem de Ostrom, porém, é que ela faz tudo isso sem romper de forma mais significativa com a visão individualista que embasa o pensamento de Hardin: ela explica a cooperação num bem comum pelo prisma do próprio indivíduo, sofisticando e agregando novas variáveis ao mesmo cálculo racional suposto por Hardin. Isso faz com que a teoria às vezes não seja capaz de equacionar adequadamente questões sociais, mais amplas — como os problemas acarretados pela mercantilização.

– O movimento Ciência Aberta preconiza a diminuição ou mesmo a extinção das barreiras da propriedade intelectual na pesquisa científica, na defesa de que a Ciência deva ser patrimônio comum da humanidade. Por outro lado, há os que apontam a necessidade de estabelecer restrições tendo em vista a garantia do bem público, como faz a Fiocruz ao patentear os produtos de suas pesquisas. Como você vê esse debate?

Acho um debate extremamente interessante. Uma parcela importante dos movimentos por conhecimento livre certamente discordaria de forma radical da estratégia da Fiocruz; trata-se do grupo que se opõe às restrições a usos comerciais do conhecimento (como as restrições impostas pelas licenças CC-NC). Os mais moderados desse grupo apresentam razões práticas relevantes para isso: 1) a dificuldade de determinar precisamente o que é um uso comercial; e 2) o fato de que a viralidade das licenças copyleft (isto é, com cláusulas tipo CC-SA) teria o potencial de converter progressivamente o mundo do conteúdo proprietário (onde predominam os usos comerciais) em um mundo aberto. Ainda assim, parece-me que a posição desse grupo sofre de uma certa miopia, similar à que apontei na visão de Ostrom: não leva suficientemente em conta que a mercantilização tem efeitos nefastos, e que ela já tem se metamorfoseado de forma a coexistir com o comum (como mencionei acima).

Não estou dizendo, com isso, que concordo a priori com a estratégia da Fiocruz (pelo contrário); mas que em casos como esse devemos considerar com cuidado as consequências sociais e os interesses favorecidos por cada alternativa disponível. Por exemplo: até que ponto uma entidade pública (como a Fiocruz) deve favorecer entidades privadas — e, particularmente, entidades privadas que não contribuem para os comuns? A partir de que ponto esse favorecimento deixa de ser bom uso do dinheiro público, e passa a perpetuar e ampliar desigualdades? Por outro lado, como garantir que os grupos menos privilegiados possam fazer uso desse conhecimento — uso que a patente impede, a princípio? Seria possível uma solução intermediária, exigindo contrapartidas de certos tipos de usuários, mas liberando esse conhecimento para os demais? Essas contrapartidas podem ser uma maneira de financiar a criação de um comum?

Em suma, ao pensar sobre conhecimento livre, devemos também nos perguntar: livre… para quê? Devemos incluir aí a liberdade para uma empresa oligopolista explorar os esforços solidários dos demais, ampliando a desigualdade social sem contribuir para o comum? Será que conceber essa liberdade de forma absoluta, para tudo e todos, não tenderia a cristalizar as desigualdades já existentes na sociedade? E será que uma cláusula copyleft, por si só, sempre garantirá que outros grupos terão condições similares de se beneficiar desse conhecimento? (Isso afeta particularmente um setor como o farmacêutico, em que são muito poucos os atores que possuem os requisitos mínimos — de capacitação, tecnologia e capital — para fazer uso desse conhecimento.) Não é fácil conciliar essas preocupações com os objetivos mais imediatos dos movimentos de conhecimento livre, mas penso que, para que eles sejam efetivamente transformadores, é importante fazer essa reflexão; o debate sobre as licenças de reciprocidade (que eu sei que interessa a nós dois) também é muito relevante nesse sentido.

– Alguns autores têm enfatizado a ideia do comum como algo em construção ou uma prática social. Nesse sentido, como resistir à apropriação privada do bem comum?

Por um lado, denunciando e lutando contra essas apropriações; por outro lado, construindo e apoiando os próprios comuns: projetos de software livre, movimentos de ocupações urbanas, povos tradicionais (que mantêm muitas práticas de bens comuns na América Latina), comunidades de compartilhamento peer-to-peer etc.

A perspectiva que você citou costuma ser resumida na frase “there is no commons without commoning” (não há comum sem fazer comum), de Peter Linebaugh; uma das (várias) contribuições dessa abordagem é enfatizar que, tanto na resistência como na construção de alternativas, a atuação estritamente individual tem seus limites: para transformar efetivamente nossa realidade, temos que construir formas de ação conjunta (…comum!), estendendo nossa solidariedade aos mais oprimidos.

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“Crowdfunding: financiando o bem comum” [artigo em periódico]

VIEIRA, Miguel Said. “Crowdfunding: financiando o bem comum”. Com Ciência, n. 174 (2015). Disponível em: <http://ssrn.com/abstract=2702097>.

Artigo publicado no dossiê sobre crowdfunding da revista Com Ciência, do Labjor / Unicamp; adaptado de uma seção de minha tese de doutorado.

Resumo

Adaptado de um trecho de minha tese de doutorado, este artigo discute alguns dos riscos envolvidos na estratégia de financiamento coletivo conhecida como crowdfunding, e defende que, com algumas ressalvas, ela tem ótimo potencial para fomentar a produção de cultura de forma desmercantilizada e como um bem comum.

Abstract

Adapted from a section of my PhD thesis, this paper discusses some of the risks involved in the collective financing strategy known as crowdfunding, and argues that, with some caveats, it has great potential for promoting the production of culture as a commons and in a decommodified manner.

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Tese de doutorado: “Os bens comuns intelectuais e a mercantilização”

Terminei recentemente minha tese de doutorado na Faculdade de Educação da USP; o título é Os bens comuns intelectuais e a mercantilização, e o orientador foi Marcos Barbosa de Oliveira, agora professor aposentado (mas que segue ativo na pós-graduação da Filosofia, na FFLCH-USP).

A defesa ocorrerá no dia 2/6/2014, às 14h, na própria FE-USP. Os titulares da banca são Jorge Machado (EACH-USP), José Correa Leite (FAAP), Pablo Ortellado (EACH-USP) e Rafael Evangelista (Labjor-Unicamp); e os suplentes são Allan Rocha de Souza (UFRRJ), Guilherme Carboni (ECA-USP), Henrique Parra (Unifesp), Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio (FE-USP) e Sergio Amadeu (UFABC). Naturalmente, a defesa será pública, e estão todos convidados! Após a defesa, lá pelas 19h, deve rolar uma bebemoração; deixe um comentário se você quiser ser avisado do local.

Segue o resumo da tese:

Esta tese investiga as relações entre os bens comuns intelectuais e a mercantilização, e os efeitos dessas relações, principalmente para o universo da educação. Seus objetivos centrais são: apresentar as principais teorias sobre bens comuns, e avaliá-las quanto à capacidade de detectar e equacionar essas relações, e quanto à adequação para abordar bens comuns intelectuais; analisar se bens comuns e mercantilização são incompatíveis, e até que ponto podem coexistir; verificando, em casos existentes de novos modelos de negócio que envolvem o compartilhamento de bens intelectuais, se a mercantilização pode surgir a partir de bens comuns intelectuais, e indicando, em caso positivo, se o “saldo” resultante de compartilhamento e mercantilização nesses diferentes modelos é socialmente positivo ou não. A análise da mercantilização é feita de uma perspectiva conceitual (baseada em Marx e Polanyi) e histórica, abordando a transição do feudalismo ao capitalismo (e sua relação com o cercamento dos bens comuns), a ascensão do neoliberalismo, e o avanço de mecanismos específicos de mercantilização de bens intelectuais (a propriedade intelectual e os sistemas de travas tecnológicas). A análise das teorias de bens comuns centra-se numa leitura crítica da corrente mais consolidada: a neoinstitucionalista, formada em torno dos trabalhos de Elinor Ostrom; avalia-se seus principais méritos (a refutação empírica da noção da “tragédia dos comuns”; e a identificação dos “design principles” frequentes em bens comuns longevos), pressupostos (como o individualismo metodológico e a teoria da escolha racional) e limitações (como “pontos cegos” em relação a poder e desigualdade, e a restrição à escala local). Discute-se ainda autores que apresentam abordagens alternativas, como aqueles mais próximos ao marxismo (e, em particular, Hardt & Negri), e as complementaridades e contrapontos que oferecem à corrente neoinstitucionalista, particularmente quanto às limitações nela identificadas. Em relação à aplicação dessas teorias a bens intelectuais, detecta-se a ampla influência da categorização econômica de bens (utilizada na corrente neoinstitucionalista), e argumenta-se pela necessidade de uma categorização mais dialética; recomenda-se ainda uma nova abordagem para o “princípio” das fronteiras. Discute-se as relações da educação com a mercantilização e os bens comuns, apontando os efeitos de ambos sobre as possibilidades de acesso e apropriação de bens intelectuais. Por fim, a tese apresenta e analisa cinco casos relacionados a novos modelos de negócio que envolvem compartilhamento de bens intelectuais. Conclui-se que em todos eles há a possibilidade de surgimento de mercantilização, de diversas formas, mas que o “saldo” resultante de mercantilização e compartilhamento varia; esses casos são, do melhor ao pior saldo: o crowdfunding (em que pode ocorrer mercantilização dos serviços de intermediação); o acesso aberto “ouro” (em que há mercantilização do espaço de publicação, que assume forma particularmente nociva nos “periódicos predatórios”); dois casos ligados à participação de empresas no desenvolvimento do software livre (o Android e os patches “ck”, em que os projetos podem ser direcionados — na gestão e pelo custeio — de modo a favorecer estrategias comerciais de empresas); e a publicidade comportamental online (em que ocorre uma mercantilização de segunda ordem: a da audiência).

Além do arquivo em formato PDF, a tese também está disponível no original editável, em ODT (nesse caso, convém instalar as fontes Tex Gyre, usadas na tese), e em EPUB, para leitores de livro eletrônico (convertido a partir do original, sem revisão). Após a defesa, deixarei por aqui também a base de dados bibliográfica que compus na pesquisa, por meio do Zotero. (Recomendo vivamente o Zotero; além de simplificar incrivelmente a geração da bibliografia — já há templates bastante maduros para o padrão ABNT —, ele é ótimo para organizar o trabalho.)

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Artigo novo, Open Knowledge Conference 2011

Apresentei um artigo na Open Knowledge Conference de 2011 (OKCon2011), e ele já está disponível (aqui no blog, ou nos anais da conferência). É parte da minha pesquisa de doutorado: uma tentativa de sistematizar um pouco mais a visão do software livre como um bem comum, com base nas categorias da teoria de bens comuns (comunidade, fronteiras, governança, commoning etc.).

(Por curiosidade, foi também o primeiro artigo que redigi usando o LaTeX, um software livre de edição e diagramação de textos interessantíssimo, sobre o qual aprendi um pouco em um curso recente do PoliGNU.)

O aspecto mais interessante do evento para mim foi a possibilidade de aprender mais sobre open data, ou dados abertos (principalmente os governamentais, mas não só: a Open Knowledge Foundation, que promove essa conferência, também trabalha em projetos de “abertura” de dados bibliográficos, científicos e até corporativos). É uma proposta que tem suas limitações (concordo em grande parte com o que o Michael Gurstein escreveu sobre isso), mas que sem dúvida tem potencial de ampliar a participação cidadã e o exercício mais efetivo da democracia.

Alguns destaques do que eu vi por lá:

  • O Scraperwiki, uma ferramenta para simplificar (e promover a colaboração no) processo de “minerar” e disponibilizar dados que já estão em sites por aí, mas não de forma manipulável ou estruturada. Algum conhecimento de programação ajuda — mas mesmo eu, que não sei nada das linguagens que o Scraperwiki usa (Python, Ruby ou PHP), consegui fazer um exemplo básico em uma oficina de uma tarde: juntar os dados de postos de atendimento (que ficam escondidos lá no site da SPTrans), para depois exibi-los num mapa.
  • A palestra incrível do Brewster Kahle, fundador do Internet Archive — projeto com o borgiano objetivo de oferecer “acesso universal a todo o conhecimento do mundo”.
  • Apresentação de Björn Brembs sobre os absurdos do sistema atual de comunicação científica. Incluiu propostas para tentar melhorá-lo, e uma demonstração de que o famoso índice de fator de impacto da Thomson Reuter, capaz de definir carreiras acadêmicas mundo afora, é em grande medida negociado, não reproduzível, e sem sentido em termos estatísticos.
  • O debate entre Rufus Pollock (co-fundador da Open Knowledge Foundation) e Mayo Fuster Morrell (ligada ao Free Culture Forum), sobre as diferenças entre as definições de conhecimento aberto / cultura livre (e serviços web abertos / livres) dos dois grupos. É uma discussão que lembra um pouco a cisma dos movimentos open source / free software (o primeiro mais pragmático e pró-mercado, o segundo mais focado na questão da autonomia), mas com sua ramificações próprias: Rufus, por exemplo, defendeu que a transparência na governança é um valor menos importante do que a liberdade de reutilização dos dados (o que soa curioso e até algo contraditório com o discurso da OKF, que, como o movimento open source, centra-se no tema da “abertura” [openness], e não no da liberdade).
  • Oficina sobre dados bibliográficos abertos, uma iniciativa para tentar reduzir a dependência do meio acadêmico aos bancos de dados bibliográficos comerciais (que, além de serem fragmentados, custam quantias absurdas a nossas bibliotecas — muito embora sejam compostos literalmente da produção dos próprios acadêmicos, e quase nada além disso).
  • Apresentações dos colegas comuneiros / P2Peers: Christian Siefkes, Michel Bauwens e Stefan Meretz. As três fazem um esforço de visualizar possibilidades sociais alternativas com base em compartilhamento, e dialogam muito com a minha pesquisa atual.
  • Apresentações de iniciativas brasileiras ligadas a dados abertos governamentais, no Ipea e no município de São Paulo.
  • Visitas: ao c-base, um hackerspace (e nave espacial abandonada), e a Weltraum, comunidade ligada ao movimento transition towns. (Estes dois destaques não foram propriamente na OKCon — fomos convidados aos dois locais por pessoas ligadas a eles, sem relação direta com a conferência — mas foram bem interessantes e mereciam menção aqui.)

O site da conferência tem uma página reunindo documentação sobre o que rolou, de modo que vídeos sobre alguns desses destaques podem aparecer por lá nos próximos tempos (é bem provável que o de Brewster Kahle seja publicado, pois ocorreu na seção principal do evento).

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“What kind of a commons is free software?” (Que tipo de bem comum é o software livre?) [artigo em evento]

VIEIRA, Miguel Said. “What kind of a commons is free software?“. CEUR Workshop Proceedings, 739 (Proceedings of the 6th Open Knowledge Conference). Berlim: 2011. Disponível em: <http://ssrn.com/abstract=2619956>.

Em inglês. Trabalho apresentado na OKCon 2011 (Open Knowledge Conference, o evento anual da Open Knowledge Foundation), em Berlim. Vejam também a apresentação (clique aqui para formato ODF). O artigo em PDF pode ainda ser baixado dos anais do evento.

Como curiosidade, foi o primeiro trabalho que editei usando LaTeX (isso ocorrera também nos dois artigos que escrevi com Imre Simon, mas nesses casos foi ele quem passou nosso texto final pra LaTeX), usando o que aprendi no ótimo curso oferecido pelo pessoal do PoliGNU. O sistema tem uma curva de aprendizado significativa, mas ajuda a redigir textos bem organizados, e os resultados gráficos são incríveis: texto bem diagramado, com formatação padronizada e ótima legibilidade (mesmo com as configurações muito próximas do default). Os arquivos fonte do LaTeX desse artigo estão aqui.

Outra curiosidade que o texto pode suscitar é o uso da noção de definição por intensão (que se grafa assim mesmo, com esse “s” meio suspeito). É um conceito da lógica, oposto ao de definição por extensão, e que percebi que se aplica muito bem à discussão sobre fronteiras de bens comuns intelectuais.

Abstract

This paper analyzes free software under the light of commons theories, and tries to answer whether it is a managed or open access commons. It briefly presents commons studies and its main concepts, as well as the discussion on immaterial commons, arguing that goods’ intrinsic characteristics should not be viewed as absolute, but rather contextualized in social struggles. Then, it proposes a two-tier structure for analyzing free software as a commons, considering its dual nature as
source and machine code. The two connected layers of the proposal – use and development – are characterized according to commons theory categories; Android and software forking are explored as examples. It concludes that the first layer resembles an open access commons, but with intensional boundaries, and that the second one resembles multiple managed commons. This disparity is associated with the category of nested enterprises and with the layers’ relations to appropriation and production.

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Apresentação no “Seminário das Quartas”

[Atualização: deixo aqui as notas esquemáticas da apresentação: em formato PDF ou ODT.]

Farei uma apresentação no “Seminário das Quartas”, organizado pelo Paulo Arantes. Será sobre o tema da minha pesquisa (bens comuns intelectuais e mercantilização); nesta quarta-feira, 30/3/11, na USP, prédio de Filosofia e Ciências Sociais, sala 103, às 19h30.

O seminário é aberto a todos. Segue abaixo um parágrafo sobre o tema, mais algumas indicações de textos:

A apresentação será sobre o tema da minha pesquisa de doutorado (que começou como mestrado, e recentemente virou doutorado direto): bens comuns intelectuais e mercantilização. Uma definição concisa possível para bens comuns é a seguinte: o compartilhamento de coisas por uma comunidade. Em minha pesquisa, parto de uma análise crítica da principal vertente de estudo sobre bens comuns, a neoinstitucional, que tem como figura chave Elinor Ostrom; e da aplicação da ideia de bens comuns a coisas imateriais (como bens culturais, software etc.). Discuto também de que maneira o conceito de bens comuns pode se opor à mercantilização, e como essa oposição pode ser mais ou menos significativa de acordo com a perspectiva teórica adotada. A parte final da pesquisa, que ainda está menos desenvolvida, é a análise dos “novos modelos de negócio” envolvendo bens imateriais que têm sido propostos recentemente (como a publicidade, o branding e a venda de serviços). Essa análise visa identificar até que ponto esses “novos modelos de negócio” podem implicar o surgimento da mercantilização no interior dos próprios bens comuns.

Seguem alguns textos que podem servir de subsídio para a apresentação. Tentei selecionar textos curtos que apresentem diferentes perspectivas sobre o tema — minhas desculpas antecipadas por alguns deles não serem em português.

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Relatório da International Commons Conference

Segue um relatório que elaborei sobre minha participação na International Commons Conference (mencionada anteriormente neste blog). Ele também está disponível em formatos PDF e ODT.

Fonte: http://www.boell.de/economysocial/economy/economy-commons-10451.html

Introdução

Este é um relatório sobre a primeira International Commons Conference (ICC), realizada em Berlim em 1-2/11/2010. Na seção “contexto”, abordo os financiadores, organizadores, objetivo, público e formato; na seção “atividades”, descrevo as principais atividades e alguns de seus destaques; e na seção “avaliação política”, apresento uma perspectiva pessoal sobre a proposta, seus resultados, relevância política e possíveis articulações do ICC com outras iniciativas que visam transformação e justiça social ao redor do mundo. O relatório conclui-se com uma seleção de documentos que resultaram da conferência. Continuar lendo

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