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Homenagem a Imre Simon

Ontem ocorreu a cerimônia de outorga do título de professor emérito ao Imre Simon; foi bastante emocionante.

Surpreendeu-me descobrir que a defesa que ele fazia do conhecimento livre e da produção colaborativa talvez tenha sido influenciada pelo período em que ele teve cargos administrativos na USP, época em que coordenou a implantação da rede de internet em praticamente todos os prédios. É que, até então, o uso da internet (e de computadores também, em certa medida) na USP era bastante centralizado e restrito; o Imre ajudou a inverter esse quadro.

Só não sei se isso foi o ovo ou a galinha (isto é, se foi fruto de uma crença anterior na importância do acesso ao conhecimento, ou se foi justamente esse processo que formou tal crença nele). Ou se as coisas andaram juntas. Talvez tenha sido a galinha: segundo o Arnaldo, que fez mais um belo discurso ontem, para quem sempre fez ciência livre, como o Imre, software livre (e, acrescento, o conhecimento livre) era nada mais que uma extensão natural dessa prática.

Segue abaixo o texto que escrevi sobre o Imre, a convite de colegas seus. (Atualização: já está disponível a coletânea com todos os discursos e homenagens.)

Tomo emprestada, para esta pequena homenagem, uma ideia que o Arnaldo Mandel mencionou no dia do enterro de Imre, e que me parece muito adequada para descrevê-lo: Imre não era só um grande cientista; ele era um grande líder. Não um líder naquele sentido individualista e competitivo, que com alguma frequência ouvimos hoje em dia, mas um líder agregador. Suspeito que Imre ― conhecedor que era do mundo da colaboração na internet (do software livre, da Wikipédia, do Acesso Aberto), que ele tanto admirou e defendeu ― sabia que, ao fim, o esforço coletivo transcende o esforço individual; mas que, para que isso aconteça, é necessário o exemplo desse líder agregador, que conecta pessoas e inspira suas ações. Talvez por isso ele tenha sido fonte de motivação para tantos de nós ― diferentes e diversos, como somos, que nos reunimos em torno dele, vendo nesse homem um espírito semelhante.

Eu aprendi muito com Imre Simon. Sempre me impressionei pela maneira generosa como ele me tratou; conversava comigo de igual para igual, a despeito das nossas diferenças de idade, de experiência ― e até, em alguns casos, de opinião. Nessas ocasiões, ele assumia a postura que, para mim, é a de um grande acadêmico: ouvia (coisa tão simples, mas tão rara…), expunha suas ideias, e convidava o interlocutor a pô-las na mesa, misturá-las, contrapô-las, e a analisar o que resultava. Uma pessoa de muito conhecimento, mas que não tinha medo de experimentar ou pôr suas crenças à prova.

Apesar da tristeza de não tê-lo mais por aqui, posso dizer ― como muitos outros, não tenho dúvida ― que o seu legado é e continuará sendo muito presente em minha vida. Cada uma das coisas que escrevi, desde que trabalhamos juntos, deve algo ao que ele me ensinou nesse período; à generosidade e abertura intelectual que ele transpirava. Um bom exemplo dessa abertura reside em uma das recomendações de leituras que ele fez a mim: ele, cientista da computação, convenceu a mim, comunicador, a ler certo livro de uma cientista política; indicação que motivou o meu mestrado na filosofia da educação. Acho que ele ficou feliz ao saber disso; e acho que, se estivesse vivo, também teria ficado feliz ao saber que esse mesmo livro rendeu à sua autora, Elinor Ostrom, o Prêmio Nobel em… Economia.

Espero que sejamos capazes de continuar criando e compartilhando coisas novas e inesperadas a partir desse legado, como imagino que ele gostaria que ocorresse.

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“O rossio não-rival” [capítulo de livro e artigo em periódico]

SIMON, Imre & VIEIRA, Miguel Said. “O rossio não-rival“. In: Nelson De Luca Pretto & Sérgio Amadeu da Silveira (orgs.), Além das Redes de Colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder. Salvador: EDUFBA, 2008, pp. 15-30. Disponível em: <http://ssrn.com/abstract=2572050>.

SIMON, Imre & VIEIRA, Miguel Said. “O rossio não-rival“. Revista USP, São Paulo, n. 86, pp. 66-77, Jul.-Ago. 2010. Disponível em: <http://ssrn.com/abstract=2572056>.

Baseado numa comunicação apresentada num seminário em Porto Alegre (2007), este texto foi publicado pela primeira vez como um capítulo do livro Além das Redes de Colaboração, que faz parte da coleção SciELO Books e está disponível integralmente para download.

Pouco tempo após o falecimento do prof. Imre Simon, a Revista USP preparava um dossiê sobre o tema da cibercultura, e seus editores propuseram republicar o texto ali, como um artigo. Essa segunda versão difere da primeira apenas em pequenos detalhes (atualização de alguns dados, inclusão de resumo etc.).

Uma curiosidade: nesse texto, eu e Imre experimentávamos adotar “rossio” como tradução para commons (Ronaldo Lemos havia nos sugerido essa possibilidade num seminário); embora a ideia tenha tido alguma repercussão positiva (no campo do software livre, por exemplo), posteriormente vim a considerar que essa não é a melhor opção, e passei a usar principalmente a expressão “bens comuns”.

Resumo

Este artigo é uma introdução ao conceito de rossio não rival. Define e compara os dois tipos de rossios (rival e não rival), sugerindo que a língua portuguesa pode ser entendida como um exemplo de rossio não rival. A seguir, propõe que os rossios não rivais estão relacionados a importantes transformações sociais e culturais que começam a se afigurar, e explora essa relação por quatro aspectos: 1) a potencialização desses rossios pela tecnologia digital; 2) o papel da rede na disseminação dos bens desses rossios; 3) o avanço dos estudos acadêmicos sobre esses rossios; 4) a possibilidade de interação entre esses rossios e a política.

Abstract

This article is an introduction to the concept of non-rival commons. It defines and compares two kinds of commons (rival and non-rival), suggesting that Portuguese language can be understood as an example of a non-rival commons. Then it proposes that non-rival commons are related to important social and cultural transformations that are beginning to take place; and explores that relationship in the view of four aspects: 1) the potentiation of these commons by means of digital technology; 2) the role Internet plays in the spreading of goods from these commons; 3) the advance in academic studies on these commons; 4) the possibility of interaction between these commons and politics.

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“A propriedade intelectual diante da emergência da produção social” [artigo em evento / capítulo de livro]

SIMON, Imre & VIEIRA, Miguel Said. “A propriedade intelectual diante da emergência da produção social“. In: Fábio Villares (org.), Propriedade intelectual — Tensões entre o capital e a sociedade. São Paulo: Paz & Terra, 2007, pp. 58-84. Disponível em: <http://ssrn.com/abstract=2571459>.

Artigo em co-autoria com o saudoso prof. dr. Imre Simon, apresentado no seminário internacional Propriedade Intelectual: Tensões entre o capital e a sociedade, e publicado no livro de mesmo nome. Também apresentaram artigos nesse seminário intelectuais como Olgária Matos, Carlos Correa e Laymert Garcia dos Santos, entre outros.

Esta foi a primeira publicação brasileira a tratar do conceito de commons (ou bem comum) intelectual. (Outra pioneira é Evelyn Cristina Pinto, que abordara esse conceito em 2006, mas numa dissertação de mestrado que não chegou a ser publicada de outra forma; nessa dissertação, orientada pelo prof. Simon, o conceito era relacionado à temática das publicações científicas em Acesso Aberto.)

Resumo

Este artigo visa apresentar tensões existentes entre a propriedade intelectual e a atual emergência da produção social. Para tanto, caracteriza a produção social e, em particular, uma de suas formas que mais se destaca: a produção por pares baseada em commons. Apresenta o conceito de commons, enfatiza os recentes desenvolvimentos teóricos pelo reconhecimento de um commons intelectual, e aponta a sua importância para o sucesso da produção social. Propõe, por um lado, que esse commons de conhecimento e a propriedade intelectual tem relação inversamente proporcional. Por outro lado, reconhece que os principais esforços da produção social apoiam-se nas próprias estruturas de propriedade intelectual. Recomenda, por fim, que é importante defender o commons intelectual, até mesmo para não sufocar a produção social; e que, para tanto, é importante desenvolver uma linguagem que valorize ambos: o commons e a produção social.

Abstract

This article presents tensions between intellectual property and the current emergence of social production. To that end, it characterizes social production and particularly one of its most prominent forms: commons-based peer production. It presents the concept of commons, emphasizes recent theoretical developments for the recognition of an intellectual commons, and underscores its importance to the success of social production. The article proposes, on the one hand, that between this knowledge commons and intellectual property there is an inversely proportional relation. And on the other hand, it recognizes that the main efforts of social production rely on the structures of intellectual property itself. The article recommends, finally, the defense of the intellectual commons; and that, therefore, it is important to develop a language that values both: commons and social production.

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